
March 4, 2017 | |
2:07 pm | |
London, United Kingdom | |
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A cantora Helô Tenório lançou no último dia 11 de junho, seu novo single “Mestiça”. A canção fala sobre o processo de miscigenação, essa mistura brasileira, e como nos identificamos diante das diferenças do mundo contemporâneo. Ela ganha lançamento em um momento de extremos e polarizações. Há toda uma cobrança por posicionamentos, entre aceitações e cancelamentos.
Mestiça fala sobre o processo de miscigenação, mistura brasileira, e como nos identificamos diante das diferenças de um mundo tão polarizado. Vivemos uma era de extremos em que somos cobrados de um posicionamento, e diante disso somos aceitos, cancelados, amados ou odiados. Como manter a sanidade mental diante disso tudo e o senso de pertencimento cultural, social ou racial? Em muitos meios eu era considerada de pigmentação de pele escura demais, em outros de pigmentação clara demais, dependia apenas da conveniência do grupo social onde eu circulava. Mas esse além de um assunto tão polêmico, levanta muitas reações pois vivemos um momento onde ao mesmo tempo que as diferenças, as minorias e as injustiças mundiais nunca foram tão levantadas e comentadas, assistimos a um sentimento de ódio, desrespeito de todos os lados. Se falamos tanto de um mundo de igualdades, de amor e de respeito, por que incitar o discurso do ódio? Por que não curarmos através do diálogo, do entendimento, da educação e da conscientização? Escrevi essa música, entre outras, através de uma experiência de vida como mulher, brasileira, mestiça, artista, pesquisadora, professora e investigadora cultural. Dentro do meu processo de construção, onde coleciono histórias dolorosas de abusos de todas as esferas, mas também sou grata aos privilégios que a educação e o conhecimento me proporcionam. Para além dos meus pais, fui criada por duas mulheres (minhas avós) que foram e são minhas maiores inspirações: Mulheres que vieram de realidades sociais muito difíceis – uma “descendente indígena” que veio fugida do nordeste (Palmares dos Índios- AL) com sua mãe e seus 14 irmãos, fugindo de um coronelismo opressor, violento e assassino. A outra, mestiça descendente de escravos e brancos do interior do Rio de Janeiro (Santo Antônio de Pádua-RJ) que veio para a metrópole para tentar uma vida distante da realidade escravocrata que ainda impera nas zonas rurais do nosso país.
Minhas avós criaram meus pais sozinhas, pois além do abuso sociais de serem duas mulheres pobres, sozinhas e mestiças, também sofreram abusos físicos dos homens brancos com os quais se relacionaram, e que não as reconheciam como mulheres “direitas” que pudessem assumir para a sociedade. Minha avó materna chegou a desenvolver problemas psiquiátricos seríssimos depois de constante violência doméstica que o homem que seria o meu avô, cometeu, e nunca se recuperou até a sua morte. Mas mesmo diante todo o sofrimento, minhas avós me ensinaram tudo o que eu sei, e tudo o que sou hoje; me disseram que o mundo não seria legal comigo, que eu teria que batalhar e construir aquilo que eu acreditava, mas que era possível. Que devemos lutar pelo o que acreditamos, e através do amor e reflexão fazermos todas as mudanças necessárias em nós mesmos, para que um dia possamos ser humanos melhores, para construir um mundo mais justo, mais amoroso e mais tolerante.